
Um novo ícone de
Dom Orione foi doado aos FDP de Londres. Obra de Irmã Bernadette Mewburn.
“No seio da Congregação, os eremitas devem estar como Moisés sobre o monte: de mãos erguidas em oração. Dessa forma, eles proporcionam um admirável e fecundo apoio a todo o apostolado
da Congregação.”(Constituições)
“O apostolado dos eremitas nasce no eremitério e desenvolve-se mediante o eremitério, por meio de irradiação. Por essa razão, apesar da enorme necessidade do apostolado ativo, não sejam os eremitas desviados da vida regular deles.“( carta de Dom Orione)
“Com oração, tudo e possível; sem oração, tudo e impossível. É na oração que as coisas são realizadas. Nos podemos plantar e irrigar, mas somente Deus pode dar a vida. Além disso, o meio mais eficaz de ajudar as nossas obras, os nossos esforços é a oração por todos, com fervor e Constancia” (carta de Dom Orione)
Frei Cruz da Divina Providência
EREMITERIO FREI AVE MARIA
CAIXA POSTAL 87495
27600-970 – VALENÇA RJ
Tel. (*24) 2458 4720
(Gl 3,7-14; Sl 110; Lc 11,15-26)
A armadura de Deus
O Senhor Jesus coloca-no de frente com o mistério da fortaleza, que não está na vontade e capacidade de permanecer «fiel a todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las» (Gl 3,10), mas muito mais na bem-aventurança que provém do fato de fazer cada pequena coisa «comigo» e não «contra mim» (Lc 11,23), como diz o Senhor Jesus. Muitas vezes, cotidianamente, experimentamos nossa fraqueza exatamente enquanto buscamos ser, cada um de seu modo, «fortes e bem armados» (Lc 11, 21), afim de lutar contra o mal. Cada dia fazemos a experiência de alguém que «chega [...] mais forte que ele e o vence, arranca-lhe a armadura, na qual confiava, e reparte o que roubou» (Lc 11,22). Infelizmente, também nós corremos o risco de pensar como Saul e seus soldados, diante do gigante Golias, e apressamo-nos em revestir o pequeno Davi de nosso coração com a sua «armadura» (1Sam 17,38), tornando-o, deste modo, incapaz de «caminhar com tudo isto» (17,39), um estratagema que, ao invés de defender-nos, torna-nos pesados, fazendo-nos mais vulneráveis: o segredo da luta está, de fato, na agilidade!
A «armadura de Deus» (Ef 6,11), com a qual podemos enfrentar os nossos inumeráveis «Beelzebul» (Lc 11,19), não é outra que o continuar unidos ao Senhor Jesus, permanecendo recolhidos interiormente, para deixar que «o dedo de Deus» (11,20), que nos buscou desde o primeiro dia da criação – segundo a belíssima imagem de Michelangelo – , continue a plasmar, em nós, aquele homem «justo [que] viverá em virtude da fé» (Gl 3,11). Viver de fé, viver na fé, crescer na confiança, significa acolher o mistério daquela comunhão que nos une indissoluvelmente uns aos outros diante de Deus, e que nos torna, deste modo, «filhos de Abraão» (3,7), exatamente porque aceitamos ser «abençoados junto com Abraão, que acreditou» (3,9. O que faz a força é próprio a união, tanto que o Senhor Jesus explica como «o espírito imundo» (Lc 11,24) «toma consigo outros sete espíritos piores que ele. E, entrando, instalam-se aí. No fim, esse homem fica em condição pior do que antes» (11,26).
Se verdadeiramente é preciso empenhar-nos com todas as nossas forças paraa manter a casa de nosso coração «varrida, limpa e adornada» (11,25), é necessário que, além de ser «limpo», nosso coração seja também habitado por uma comunhão profunda e alargada com o Senhor e com quantos são animados pelo seu Espírito. Somente assim ele não se «dispersa» (11,23). A fé é, antes de tudo, entrar em comunhão, e o comportar-se de um certo modo é somente uma consequência da primeira. Mudar esta «divina hierarquia» nos coloca nas mãos a Beelzebul, que busca de todas as formas provocar o efeito contrário: «Quem pratica estas coisas, viverá por elas!» (Gl 3,12). O risco terrível é aquele de iludir-se de fazer alguma coisa por Deus e, ao invés, fazê-lo exata e somente por si mesmo. A nossa força está na armadura de Deus que é a comunhão: um simples «manto» como aquele que Jônatas – filho de Saul – «deu a Davi» (1Sam 18,4) porque o «amava como a si mesmo» (18,3). De fato, é na comunhão, no estar «comigo» (Lc 11,13) que «em Cristo Jesus a benção de Abraão» passa «às gentes, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé» (Gl 3,11). O Espírito é aquele que unifica e pacifica.
Fratel Michel Davide OSB
Reflexão para a 26a quinta-feira do Tempo Comum, anos pares
Simplesmente!
Continua o ensinamento do Senhor Jesus sobre a oração! Depois de ter-nos ensinado o modo de dirigir-nos a Deus, chamando-o de Pai, e apresentando-nos diante dele em toda nossa pobreza, o Senhor Jesus nos revela a finalidade da oração: «Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que o pedirem!» (Lc 11,13). E mesmo assim, cada dia continuamos a pedir o que, talvez, não tenhamos verdadeiramente necessidade, ao ponto de merecer, por isso, a reprovação do apóstolo: «Sois assim tão insensatos? A ponto de, depois de terdes começado pelo espírito, quererdes terminar na carne?» (Gl 3,4). É verdade que, na nossa existência, temos necessidade de tantas pequenas e grandes coisas, mas nem as pequenas, nem as grandes coisas de nossa vida – seja que tenham sido concedidas, seja que tenham sido negadas – conseguem dar-nos aquele senso de plenitude, que somente a presença do Espírito, em nosso coração, pode dar-nos.
A presença do Espírito em nós, qual dom supremo do Pai e fonte de todo e qualquer outro dom, permite-nos transformar o nosso coração de «maus» (Lc 11,13) em um coração bom, semelhante aquele do Pai celeste: «Se o filho lhe pede um peixe, lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião?» (Lc 11,11). O grande milagre da oração não é obter isto ou aquilo, mas sim transformar o nosso coração, conformando-o com aquele do Filho, habitado por imensa confiança. Cada vez que entramos na oração, deveríamos poder contemplar «diante de nossos olhos, aos quais foi representado, como que ao vivo, Jesus Cristo crucificado» (Gl 3,1) que, do alto de sua cruz, cada dia sopra sobre nós o Espírito da vida nova. Se é verdadeiro que «aquele que vos dá generosamente o Espírito e realiza milagres entre vós» (Gl 3,5) cumula-nos de tudo aquilo de que temos necessidade para viver, da mesma forma, o próprio Espírito revela-nos aquilo de que, verdadeiramente, carecemos. No outono prematuro de sua existência, Maria Callas, segundo a interpretação cinematográfica de Franco Zeffirelli, falando com seu empresário sobre a oração, diz, nestes termos: «Frequentemente pedimos a Deus isto ou aquilo, e não sabemos se nos concederá, mas talvez, seria muito melhor pedir para ser simplesmente uma mulher, pedir para ser simplesmente um homem, e isto Ele não pode deixar de conceder-nos»[1].
Todos nós devemos aprender – uns mais, outros menos – a pedir o essencial, que é sermos homens e mulheres cumulados daquele Espírito, capaz de fazer-nos sempre levantarmo-nos do «leito» (Lc 11,7) das nossa comodidades e fechamentos, para dar-nos aos outros, do mesmo modo como Deus mesmo, cada dia e em todo momento, torna-nos participantes de seu sopro vital, o qual nos permite que sejamos simplesmente vivos, para tornar-nos simplesmente homens capazes de «dar coisas boas», de sermos bons como o Pai celeste (cf. Mt 5,45). Todo o resto, pelo qual podemos ser enganados, poderia levar-nos muito longe do segredo da vida, longe do coração do próprio Deus, induzindo-nos inutilmente a pedir o que, simplesmente, não temos necessidade para estarmos vivos e sermos capazes de doar-nos.
Fratel Michel Davide OSB